A banalização da discussão sobre sustentabilidade

A idéia deste post já tenho há muito tempo, e o título veio juntamente com um podcast que escutei do Andre Trigueiro pela CBN. Em outras palavras, fala-se muito sobre ambiente e sustentabilidade, mas se faz muito pouco. O Trigueiro trouxe alguns dados bem interessantes que resumem a explosão da discussão do tema, mas na verdade o mundo está doente, vítima da febre Al Gore. É impressionante como passou a ser cool as pessoas discutirem sustentabilidade em todos os lugares, principalmente ONG’s encabeçadas por gente da alta sociedade. Está na moda falar sobre o fim do mundo, aquecimento global, derretimento das calotas polares, pingüins, reciclagem, selo verde, ISO 14001, oportunidade perfeita para aparecer no jornal as margens de algum córrego ou na feira de reaproveitamento de garrafas pet da escola do filho da empregada. Pura hipocrisia. Radical, eu sei, mas quem disse que a verdade é sempre agradável?

Incorporar o discurso de sustentabilidade é fácil, aliás, até bonito, mas realmente mudar valores é algo bem mais complicado, diria até impossível de acontecer. O Trigueiro trouxe a seguinte pesquisa do IBOPE: 85% dos entrevistados disseram que valeria a pena pagar mais por um produto que não agrida o ambiente, no entanto, apenas 52% dos entrevistados realmente praticam isso; 92% concordavam em separar o lixo para reciclagem, mas, apenas 30% efetivamente separam os reciclados em casa. As pessoas acham legal ter uma opinião a favor da sustentabilidade, mas não tem atitudes realmente sustentáveis, banalizando assim as discussões em torno do tema. Você está na crista da onda, pois todos concordam que a sustentabilidade é importante e não será você a discordar, mas poucos praticam. É o mesmo caso da pergunta se as pessoas acreditam em Deus, uma pesquisa feita em diversas cidades mostrou que 98% da população acreditam em Deus, quando sabemos que não é bem assim. As pessoas têm medo de discordar da maioria, mas não necessariamente concordam com aquilo. O ser humano é complexo não?!

Diversas empresas se dizem preocupadas com a sustentabilidade e com o ambiente, mas continuam com as mesmas atitudes. Caso da Natura, que se diz sustentável e até ganhou prêmios com a utilização de refis em substituição a embalagem convencional, mas poderia melhorar ainda mais. Não há necessidade de uma embalagem de papel no caso dos refis, como acontece, todas as informações poderiam vir diretamente inscritas no produto, que utiliza uma embalagem reciclável tipo PEAD 2, bastante difundida entre as indústrias química e farmacêutica. Imagem é tudo!

Já notaram quantas embalagens existem para acomodar um simples bombom? São quatro embalagens: o alumínio, o celofane, a caixa de papel (que não pode ser reciclado) e mais um celofane, detalhe, o celofane não é reciclável. Se pudéssemos deixar todas as embalagens desnecessárias no supermercado, pode ter certeza que alguém já teria tomado uma providência. Temos também as sacolas plásticas, não conheço ninguém, inclusive pessoas que estudam e palestram sobre reciclagem e sustentabilidade, que utilize sacolas de papel ou de tecido no supermercado (levando de casa, obvio) para acomodar as compras no carro, ninguém. Ainda sobre embalagens desnecessárias, existem umas formas retangulares gigantescas feitas com papel alumínio, descartáveis, é claro, para substituir as formas tradicionais, a propaganda estampada era: “não se preocupe em lavar a louça depois”.

Outra coisa que também tem acumulado cada vez mais embalagem são os chás em porções individuais. No meu tempo (isso soa como velho), os chás vinham em um único pacote de papel dentro de uma caixa de papelão. Hoje, com disseminação das porções individuais, o consumidor enfrenta quatro embalagens até chegar ao produto: o filtro de papel, que não é reciclável (ele só pode ser reutilizado de outras maneiras), um envelope de papel, a caixa de papel e um celofane. Em alguns casos, empresas como a Dr. Oetker conseguem piorar ainda mais esta realidade, em sua linha de chás “Travel Senses” (Índia, Marrocos e Inglaterra) a Oetker trocou o envelope de papel por um feito em uma espécie de plástico. Até as verduras são embaladas em sacos plásticos hoje em dia, o que aconteceu com o papel?

A única pessoa que conheço que mudou radicalmente suas atitudes é a consultora ambiental Patrícia Blaut, em um evento sobre ambiente e sustentabilidade que participamos na cidade de Assis/SP, em todas as refeições ela dispensou o saquinho que os talheres vieram embalados, o papel toalha da bandeja e o copo descartável que estava sendo utilizado. Patrícia tinha consigo uma caneca de alumínio na bolsa para estes momentos. Por incrível que pareça, grande parte dos participantes do evento acharam a atitude da consultora radical, afirmando que “não é bem assim”. =/ Se não é assim, como é?

O Jean Boechat iniciou uma discussão semana passada no radinho sobre aquelas mensagens de rodapé de email para você pensar antes de imprimir a mensagem e etc, chegou-se, mais ao menos ao consenso que só isso não basta, mensagens bonitinhas para aparecer na TV sem ações práticas não levam a lugar nenhum. Como ando meio radical concordo com o Jean quando ele diz: “pessoalmente, eu acho que o mundo já acabou mesmo e estamos só nos créditos. então, não adianta muito mais fazer campanha e etc.”

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3 Responses to “A banalização da discussão sobre sustentabilidade”

  1. Sabe, não é radicalismo, é apenas a constatação da realidade. Quando dizemos para as pessoas que a temática ambiental é muito mais do que salvar o coelhinho que vive no mato todo mundo acha que você é radical. Como você disse a relidade é cruel e ninguém está dando a mínima para ela. O que importa e fazer artesanato com garrafa pet (caraca mano, ninguém usa essas porcarias feitas com garrafa) e uma vez por ano plantar árvores na beira de algum córrego. Há um tempo atrás eu pensei em começar uma série de textos sobre essa realidade. Até escrevi o primeiro (Meio ambiente: falácias e imprecisões), mas fico pensando qual o retorno disso?? As pessoas vão continuar vivendo no país das maravilhas. Então acabo desanimando. Mais um texto bacana que merece ser lido. Espero que não fique só no meu comentário.

  2. Vale sim fazer campanha de preservação do meio ambiente e justiça social. Se a sua contribuição é não jogar o lixo pela janela do carro, voce já tem atitude, falta ampliar. Continue apostando neste tema.
    Abraços.

  3. POis é amigo! A verdade é dura e crua. Realmente falamos muito e fazemos pouco, mas segundo os seus números alguma coisa está sendo feita. Lembro-me de quando inciaram a campanha contra o tabagismo e muita gente pensou que a industria MUNDIAl fosse indistrutível. Pois é e chegamos ao nível que nos encontramos. Antigamente só era proíbido fuma na Igreja, hoje, em algumas cidades, até na rua é proibido.
    Continuo acreditando que podemos fazer mais. Ainda não acredito que o munto tenha acabado e estou certo de que nossos (ou os meus) filhos e netos darão rizadas do nosso disperdício.
    Abraços

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