Inclusão Digital não é saber navegar na internet

Inclusão Digital (ID) ou Infoinclusão, como já encontrei por aí, pelo jeito não vai sair nunca do papel como deveria. Além da idéia deturpada de ID que o governo tem e, está querendo implantar, a ID vem sendo tratada como mais um projeto de governo, independente da educação básica que cada pessoa recebe quando passa pelas escolas públicas. Claro que existem exceções, mas grande parte de nossos estudantes saem da escola sem sequer saber ler, tenho amigos professores em diversas escolas pelo Estado de São Paulo que afirmam isso a todo o momento.

A progressão continuada pregada pelo Estado e lobotomizada nos professores em eventos de nomes pitorescos promovidos pela Secretaria da Educação é um jogo no qual o aluno finge que aprende e o professor se convence que o aluno aprendeu e ponto. O aluno passa de ano, o professor volta para casa feliz, recebe seu bônus de fim de ano, e o governo consegue alcançar seus índices e metas. E nem adianta colocar a culpa somente na progressão continuada, em outros Estados ela não existe e a coisa não é muito diferente, o problema é mais crítico.

ID consiste na pessoa saber utilizar um editor de texto ou uma planilha eletrônica de maneira que ela lhe seja útil, ou ainda, saber usar a internet para aprender, ler, pesquisar, saber o que é e para que serve ferramentas web básicas como o Google, por exemplo. Não confundam pesquisar e ler com copiar e organizar textos da internet para serem entregues como trabalhos disciplinares de cursos barrelas de faculdades desqualificadas (caso verídico, tem sujeito que imprime página de site e entrega). Pesquisar envolve horas (até dias) de buscas a frente do Google e a leitura de dezenas de sites especializados para que seu ponto de vista seja formado e aprimorado. Preguiça, ignorância, Orkut, burrice e janelas do msn atrapalham um pouco este processo.

ID não consiste só no oferecimento cursinhos do tipo aqui é botão de ligar, o úoord serve para digitar textos, no ecssél você faz planilhas, e esse ezinho azul é a interneté isso gente até amanhã, quando vamos aprender a copiar e colar!

A eterna máxima de que se a pessoa aprender a digitar textos no Word e a somar no Excel vai estar capacitada para arrumar um emprego é outro erro grave, talvez um dos mais graves. Embutir no sujeito a falsa esperança que mesmo ele mal sabendo ler ou raciocinar para interpretar um texto vai estar empregado somente por que sabe ligar o computador e abrir o Word chega a ser covardia. O sujeito passa a acreditar que a informática é um fim, quando todos sabemos que ela não passa de um meio, que se não for associada ao raciocínio e a uma educação básica decente, tem efeito quase nulo. Ligar o computador, digitar textos e navegar na internet não é, e está longe de ser, inclusão digital. De que adianta o Brasil crescer quase 5% em 2007 sendo que seu povo não sabe ler e raciocinar?

É por isso que eu não acredito na ID que programas OLPC like prometem. Sou capaz de apostar uma grana que o computador do projeto será tratado tão porcamente quanto os livros didáticos o são. Até já comentei isso por aqui, não duvido que o Computador para Todos, meses depois do lançamento esteja sendo vendido no Mercado Livre e na Santa Ifigênia por pura falta de compromisso com um equipamento que não terá seu uso direcionado e as crianças não saberão o que fazer com “aquilo”. Recebi fotos de uns testes do OLPC em uma escola (não lembro se Rio ou São Paulo), adivinhem o site que as crianças estavam acessando? Alguém aí falou Orkut?

A outra hipótese, que também apostaria uma grana, é o paternalismo que existe com equipamentos e materiais do estado, sei de casos de salas de informática em escolas trancadas pelos diretores pois os alunos podem estragar os computadores. Tenho dois amigos em pontos distintos do estado que tiveram que enfrentar diretores de escola assumindo a responsabilidade por possíveis danos nas máquinas para que pudessem liberar a sala de informática para os alunos. Agem assim pois são novos, estão com “todo o gás”, os professores mais antigos se lixam para a sala de informática, por dois motivos, o salário não vai mudar se ele levar seus alunos para usarem os computadores, e ele não tem a mínima idéia de como instruir os alunos, pois só sabe o básico do básico (do básico) do Word.

Enquanto alguns paradigmas não forem quebrados e vícios estatais não forem abolidos, com mudanças sólidas na base educacional, não será nenhum programa romântico de inclusão digital feito para aparecer bonito na foto e nos jornais que salvará o mundo.

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One Response to “Inclusão Digital não é saber navegar na internet”

  1. Bem, Kadu, acho que todos sabem que a tal da Inclusão Digital alardeada pelo governo não é essa maravilha. Muito desse fracasso é culpa do próprio governo e seu sistema educacional, mas na propaganda fica muito bonito. Mas, só para completar as informações também existem os prossores que usam a sala de informática para matar a aula. Jogam os alunos lá dentro sem orientação ou objetivo apenas porque não estão com saco de dar aula. Outra coisa interessante de se ressaltar é que o bonus que os professores e funcionários da educação recebem no fim do ano é apenas um meio de acertar as contas do estado. Explico. Segundo a constituição do Estado de São Paulo o governo tem que gastar um percentual fixo do icms com a educação. Claro que ele não consegue atingir essa meta e no fim do ano ele divide o total que falta entre funcionários e professores. Então essa grana poderia ser usada para melhorar escolas ou comprar material didático, mas tem a função de manter professores e diretores na linha, sem fazer greve e nem reclamar de nada.

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