A burrocracia que sempre vai emperrar o estado.

Quem acompanha o blog sabe que estou brigando no Juizado Especial Civil para que a BenQ-Siemens estorne o dinheiro que paguei por um modelo que apresentou defeito com um mês de uso. Por coincidência, este mês faz um ano que comprei a bomba AL-21. Pois bem, meu processo se iniciou no Procon/SP, mas após a empresa ter se lixado para fazer qualquer tipo de acordo ele foi encaminhado para um Juizado Especial Civil ligado a Faculdade Toledo, que, depois de alguns meses, encaminhou para um Juizado público estadual, e é aí que o caldo engrossa.

Sou funcionário público estadual, “funcionário do Serra”, entendo como as coisas funcionam ou caminham (lentamente) dentro de um órgão público e, acredite, é tudo a mesma coisa. Exemplo, semana passada, um engenheiro, parecerista técnico de um processo de drenagem urbana, levou uma chamada (de leve, pois ninguém se importa) por deixar um processo parado por quase quatro meses em cima de sua mesa, no último prazo, liberou o processo e saiu em merecidas férias. Esta semana descobrimos que o sujeito não atualizou o sistema que informa para todos no estado interessados naquele parecer, que o mesmo já estava pronto, detalhe, é necessário logar no tal sistema. Ligaram para o fulano e resolveram o problema. O cara faz duas coisas dentro do órgão e mesmo assim não desempenha sua função corretamente, e ele não ganha mal, muito pelo contrário.

Voltando ao meu caso com a BenQ-Siemens, eu tinha certeza que a transferência do Juizado ligado a faculdade para o Juizado estadual não ia ser boa coisa. Começou bem quando liguei lá para pedir informações sobre o caso, logo após ser transferido:

Desculpe Senhor, mas o Senhor tem que comparecer aqui pessoalmente para maiores informações!

Detalhe para o “comparecer aqui pessoalmente”, como se eu pudesse comparecer na forma ectoplasmática também… =/

Pensei! Bom, deve ser algo importante, vou utilizar um horário de almoço para ir lá. Chegando ao Juizado, no início de novembro, informei o número do processo e obtive a seguinte informação:

O processo do senhor está parado na mão de fulano, a resposta deve chegar até o final do mês, no MÁXIMO, até o início do mês que vem.

Esperei alguns segundos apostando no fôlego da funcionária e nada. Ela fez com que eu me deslocasse por 18 quarteirões para escutar uma única frase, se ela fosse bonita pelo menos, mas nem isso. Saí puto da vida de lá e este mês liguei para maiores informações, uma funcionária muito educada (sem ironia) me atendeu:

Eu - Gostaria de saber alguns informações do processo XYZ. Pode ser com você?

Secretária - O Senhor tem que comparecer ao Juizado para maiores informações, não estamos autorizados a passar nada por telefone.

Eu - Moça, me ajuda! Eu fui aí no mês passado, esperei por quinze minutos para escutar uma informação absurdamente simples e praticamente inútil.

Secretária - Desculpe Senhor, não posso passar a ligação lá para o andar debaixo, e é só lá que eles tem acesso ao sistema.

Eu - Vocês ficaram de me enviar uma correspondência caso surgissem novidades no processo, como não recebi nada não há novidades, certo?

Secretária - É sempre bom dar uma passadinha aqui Senhor.

Depois dessa decidi que só vou aparecer no Juizado em janeiro. Não vale a pena me deslocar por 18 quarteirões para saber que o processo está sei lá onde com sei lá quem. Deve estar parado na mesa de alguém esperando o esporro de um chefe que também está pouco se lixando para os processos acumulados. Esta ineficiência da máquina pública, associada a estabilidade profissional, é que alimenta o maldito estereótipo de que todo funcionário público é boa vida.

Mesmo me sentindo ofendido com esta insígnia, com tudo que eu vejo onde trabalho e nos órgãos que tenho contato, sou obrigado a concordar que grande parte dos funcionários públicos são boa vida sim, encostados em um sistema falido que paga milhares de reais em salários que alimentam centenas de vagabundos paternalistas. Eu sempre me pergunto o motivo do Estado não levar a máquina como o sistema privado o faz, buscar produtividade, eliminar despesas inúteis, ter mais responsabilidade com o “dinheiro da empresa” e o principal, demitir funcionários que não trabalham. O Estado tem que parar de passar a mão na cabeça de gente que está pouco ligando para o órgão que trabalha ou para a função que desempenha, adequar a lei é a primeira coisa. O pior é que se você menciona algo parecido dentro deste ambiente de trabalho viciado, é taxado de radical, traidor e pode até ficar marcado pelo seu superior.

Quando isso vai mudar? Quem sabe no mesmo dia que a humanidade construir uma espaçonave que viaje na velocidade da luz!

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4 Responses to “A burrocracia que sempre vai emperrar o estado.”

  1. Isso me lembra que esyou há quatro meses para pegar minha carteira de trabalho no órgão responsável. Não vou simplesmente porque vou pegar uma fila, sem brincadeira, de umas cinco horas e correr o risco de chegar lá e não encontrar nada.

  2. Várias coisas estão erradas no modo de gerenciamento de RH do Estado. Em primeiro lugar não temos punição para o mau funcionário, mas também não temos incentivo para o bom funcionário. Ao contrário da iniciativa privada, não adianta você mostrar seu valor que não vai adiantar nada. Vai continuar ganhando a mesma coisa e no mesmo cargo para o resto da vida. Valorização seria muito bem vinda. Outra coisa é a discrepância entre salários. Tem muita gente ralando muito e ganhando R$ 500,00 e muito cara sem fazer nada ganhando mais de R$ 10.000,00. O pior é que muitas vezes o cara que ganha muito chegou lá porque é amigo ou parente de alguém que manda. Ou seja, competência não é essencial para o funcionalismo público. Concordo que acabamos tendo várias regalias e que as defendemos de maneira irracional, mas para o governo deve estar bom, afinal de contas a população não reclama. Acho que coisas como abonadas e licença prêmio são coisas um pouco absurdas, mas ninguém está ligando. O que me deixa triste, e isso é uma reflexão de um funcionário público que está a mais de 10 anos na ativa, é que quem faz a máquina de serviços funcionar são os 85% de funcionários que ganham o mesmo que a vendedora de roupa do bazar do Manuel, mas os que ficam em destaque e fazem a fama de todas as repartições, são os 15% de incompetentes bem remunerados que só estão por lá porque são apadrinhados de algum político eleito pelo povo.

  3. A única coisa eu fica parada em cima da minha mesa, é o monitor do computador… mas bem que ele poderia ser subsituído :D

  4. Enquanto o Brasil for cheio de brasileiros nada vai mudar. O Estado não funciona porque quem faz parte dele não esta disposto a fazer nada. É de político eleito pelo povo a secretária concursada. Infelizmente existe a cultura terrível de ser funcionário público pela estabilidade, a imensa maioria quer esses cargos pra não fazer nada mesmo.

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