O Tartufo de Molière na sua TV
Tartufo, uma das melhores personagens de Molière, se transformou em sinônimo de hipócrita com o passar dos séculos, hoje me lembrei dele mais uma vez quando fui beber um simples copo de água.
Beber água, um gesto tão simples e necessário para suprir as necessidades básicas do organismo, seja ele humano ou vegetal. Diz ser necessário beber de 2 a 4 litros de água por dia para que o corpo mantenha as funções vitais em ordem. Imaginando que um copo tenha 300ml isso equivale entre 7 e 14 copos por dia. Na reclusão de meu quarto/escritório/biblioteca, estava tentando terminar minha sofrida dissertação de mestrado quando resolvo saciar a tal necessidade hídrica do organismo.
Dirigindo-me até a cozinha, me deparo mais uma vez, são várias por semana, com o mais perfeito representante de Tartufo na atualidade, na TV, Missionário R.R. Soares. As palavras doces e envolventes do tal sujeito lascivo e virtuoso soam como música para os ouvidos daquelas centenas de pobres desesperados, que em busca de alguma esperança, são seduzidos pela fé cega em algo que os fortaleça, seja esse algo o que for.
A única explicação para que as pessoas se sujeitem a serem nitidamente ludibriadas em nome de um bem maior é que precisam de uma palavra de conforto para um momento difícil. Elas não se importam em comprar algumas interpretações da Bíblia, ainda mais trechos selecionados que farão bem aos ouvidos dos mais incautos, relação simples de compra e venda. O Tartufo diz o que as pessoas querem ouvir e do jeito mais atraente e sedutor possível. Para mim é assunto encerrado, a Bíblia é passível de várias interpretações sim e, quem sabe fazer uso dessa “ferramenta”, está faturando alto em cima do sofrimento e da ingenuidade alheia.
Leia na seqüência dois dos Atos da Obra O Tartufo de Molière. Atentem para as falas de Tartufo, de fato, o cara é bom com as palavras.
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Fragmento da obra O Tartufo, de Moliére - Ato IV (cenas V e VI).
ATO IV
CENA V
Tartufo, Elmire, Orgon
TARTUFO
Disseram-me que queria falar-me.
ELMIRE
Sim. Há segredos que deve saber. Mas, antes, feche essa porta e olhe bem em volta para evitar surpresas. Uma situação semelhante à de há pouco certamente não nos convém. Nunca levei tamanho susto; tive muito medo de Damis, por sua causa, e o senhor viu bem os esforços que fiz para que mudasse de idéia, e tentei acalmá-lo. É verdade que fiquei tão perturbada que nem mesmo tive a idéia de desmenti-lo. Mas, graças a Deus, tudo terminou bem, e as coisas, agora, estão mais seguras. A consideração de que goza dissipou a tempestade, e meu marido, nem desconfia do senhor: para desafiar as más línguas, quer que estejamos juntos a todo instante; e é por isso que posso, sem temer que me reprovem, encontrar-me aqui fechada com o senhor, com a liberdade de abrir-lhe o coração talvez demasiado pronto a aceitar o seu.
TARTUFO
É difícil compreender sua linguagem, minha senhora: ainda há pouco falava de outra maneira.
ELMIRE
Ah! Se está aborrecido por causa daquela recusa, como conhece mal o coração de uma mulher! E como entende pouco o que ele quer dizer quando se defende tão fracamente! Nesses momentos, nosso pudor sempre luta contra o que pode nos dar ternos sentimentos. Por mais que encontraremos razão para o amor que nos subjuga, sempre temos um pouco de vergonha em confessá-lo. A princípio, defendemo-nos dele, mas, pelo nosso jeito, se vê logo que o coração se está rendendo, que a nossa boca se opõe a nossos anseios apenas por um sentimento de honra, e que tais recusas tudo prometem. Sem dúvida, faço-lhe uma confissão bastante livre, deixando de lado nosso pudor. Mas, afinal, já que comecei a falar, teria eu tantado reter Damis, teria, escutado tão longamente e com tanta doçura o oferecimento do seu coração, teria encarado a questão conforme viram que fiz, se aquele oferecimento não chegasse a me agradar? E quando eu mesma quis forçá-lo a recusar o casamento que fora anunciado, que é que tal insistência deveria tê-lo feito entender, senão que o interesse que lhe tenho, e o aborrecimento que teria com esse casamento assim resolvido, viria pelo menos partir um coração que se quer por inteiro?
TARTUFO
Minha senhora, é sem dúvida uma alegria imensa ouvir tais palavras da boca amada; o mel que destila provoca em todos os meus sentidos suavidade como jamais senti. Minha maior dedicação está na felicidade de agradá-la, e a bem-aventurança de meu coração reside em seus sentimentos, mas esse coração pede a liberdade de pôr em dúvida tanta felicidade. Sou levado a crer que tais palavras sejam um honesto artifício para obrigar-me a romper o casamento que se aproxima; e se devo explicar-me com a senhora com toda a liberdade, não me fiarei em palavras tão doces, sem que um pouco de seus favores, pelos quais suspiro, venha confirmar tudo quanto puderam dizer-me, implantando-me na alma fé constante nas bondades encantadoras que tem por mim.
ELMIRE (tossindo para advertir o marido)
Como? O senhor quer ir tão depressa, consumindo logo de início a ternura de um coração? Alguém se mata para fazer-lhe a confissão mais terna, mas não é o bastante para o senhor, e não se pode satisfazê-lo senão levando a questão até os últimos favores?
TARTUFO
Quanto menos se merece um bem, menos se ousa esperá-lo. Nossos desejos não podem fiar-se em palavras. Facilmente se suspeita de uma felicidade cheia de glória, e logo se quer gozá-la antes de crer nela. Quanto a mim, que creio merecer tão pouco suas bondades, duvido do sucesso de minhas temeridades; e não acreditarei em nada, minha senhora, antes que tenha sabido convencer meu amor com realidades.
ELMIRE
Meu Deus, seu amor é um verdadeiro tirano, e lança-me o espírito em estranha confusão! Que domínio furioso exerce sobre os corações e com que violência busca o que deseja! Como? Ninguém pode livrar-se de sua insistência, que nem dá tempo de respirar? Fica bem ser tão rigoroso, querer a todo custo tudo quanto se pede, e assim abusar, por esforços insistentes, do fraco que o senhor vê que as pessoas têm por si?
TARTUFO
Mas se a senhora vê com simpatia minhas homenagens, por que recusar-me testemunhos seguros?
ELMIRE
Mas, como consentir no que o senhor quer, sem ofender o Céu, de que sempre fala?
TARTUFO
Se é somente o Céu que se opõe aos meus anseios, pouco representa para mim contornar tal obstáculo, e isso não deve deter seu coração.
ELMIRE
Mas dão-nos tanto medo as sentenças do Céu!
TARTUFO
Posso dissipar-lhe esses temores ridículos, minha senhora, pois conheço a arte de afastar os escrúpulos. De fato, o Céu proíbe certos contentamentos; (é um celerado que fala) mas nele se acha um modo de fazer acordo; conforme necessidades diversas, existe uma ciência destinada a dilatar os liames de nossa consciência e retificar o mal da ação com a pureza da intenção. Saberei ensinar-lhe esses segredos, minha senhora; tem somente que se deixar levar. Satisfaça-me o desejo e não tenha receio: respondo-lhe por tudo, e assumo todo o mal. A senhora está tossindo muito.
ELMIRE
Sim, isso é um suplício.
TARTUFO
Aceitaria uma bala de alcaçuz?
ELMIRE
É um resfriado obstinado, sem dúvida, e creio eu todas as balas do mundo não ajudariam.
TARTUFO
De fato, é bastante incômodo.
ELMIRE
Isso mesmo, mais do que pode supor.
TARTUFO
Enfim, é fácil destruir seu escrúpulo: posso assegurar-lhe um segredo absoluto; o mal está apenas no escândalo que se faz; este é que faz o mal, e não é pecar fazê-lo em silêncio.
ELMIRE (tossindo mais uma vez)
Enfim, vejo que tenho de decidir-me a ceder; que preciso consentir em conceder-lhe tudo, e que, sem isso, não devo pretender que possa estar contente, e que se queira entregar. Sem dúvida, é penoso chegar a esse ponto, e é contra a vontade que dou tal passo; mas, já que se obstina em querer submeter-me a isso, sem querer acreditar em tudo o que possa dizer-lhe, exigindo-me provas mais convincentes, tenho de resolver-me e contentá-lo. Se tal consentimento implicar em alguma ofensa, tanto pior para quem me força a tal violência; a falta certamente não cabe a mim.
TARTUFO
Sim, senhora, eu assumo e a coisa em si…
ELMIRE
Abra um pouco a porta e veja, por favor, se meu marido não está nesse corredor.
TARTUFO
Que necessidade há da precaução que a senhora toma por ele? Cá entre nós, trata-se de um sujeito que se pode levar pelo nariz; é capaz de vangloriar-se de todos os nossos colóquios e eu o pus em condições de ver tudo sem acreditar em nada.
ELMIRE
Não importa: por favor, saia um momento, e examine tudo cuidadosamente.
CENA VI
Orgon, Elmire
ORGON (saindo de baixo da mesa)
Que homem abominável, tenho de confessá-lo. Custa-me mesmo a crer e estou desconcertado.
ELMIRE
Como? Já saiu? Você está brincando. Volte lá para baixo, ainda não está na hora; espere até o fim para ter toda a certeza e não se fie em simples conjecturas.
ORGON
Não, ainda não saiu do inferno pessoa pior.
ELMIRE
Meu Deus! Não se deve acreditar tão rápido. Deixe-se convencer antes de entregar os pontos e não se precipite para não se enganar. (Faz com que o marido se esconda por trás dela).










Não conhecia este personagem Tartufo…
Achei incrível seu poder de persuasão… rsrs
Mandou bem Kadu…
[]s!!!
Muca
Achei interessante essa comparação entre o Tartufo e o R.R. rcentemente ele teve problmeas com a apêndice e foi cirurgiado ás pressas. Parece que para ele mesmo as curas miraculosas não valem, talvez esteja oma fé demasiado fraca…
Ficaria feliz se vc me indicasse onde consegui-la ou me enviasse a íntegra dessa peça, O Tartufo. Faça isso, amigo, desde já lhe agradeço!